Os vencedores do I FIC de 1966. Você concorda ?

I FICO Festival Internacional da Canção (FIC) foi um concurso de músicas nacionais e estrangeiras, anual, realizado no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, e transmitido pela TV Rio (primeira edição) e pela TV Globo.
A música de abertura era composta por Erlon Chaves e chamava-se “Hino do FIC”.
O apresentador oficial era Hilton Gomes.
O prêmio Galo de Ouro foi desenhado por Ziraldo.
Criado por Augusto Marzagão, durou de 1966 a 1972 (sete festivais). Cada um tinha duas fases: a nacional, para escolher a melhor canção brasileira, e a internacional, para eleger a melhor canção de todos os países participantes — a concorrente brasileira era a vencedora da fase nacional.
Começamos hoje a relembrar os vencedores desses Festivais. Vamos postar as duas primeiras colocadas das Fases Nacionais de cada ano.
Portanto, para nosso post de hoje, vamos falar do I FIC, de 1966.
Esse foi o primeiro Festival na Cidade do Rio de Janeiro. Os demais Festivais, da Excelsior e da Record, eram na Cidade de São Paulo.
Um elemento que apareceu de forma avassaladora nesse festival – e não desapareceu mais nos anos seguintes – foi a vaia.
Agora, passados mais de 40 anos, você pode tirar a sua conclusão:

“Quem estava certo, o júri ou o público ?”
As preferidas do público eram “Dia de Rosas“, com Maysa, e “O Cavaleiro“, com Tuca. As vaias começaram antes da divulgação do resultado. O comentário geral era de que o clima das músicas era muito triste.
O resultado foi :
  1. Saveiros (Dori Caymmi e Nelson Motta), com Nana Caymmi.
  2. O cavaleiro (Tuca e Geraldo Vandré), com Tuca.
  3. Dia das rosas (Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo), com Maysa.

Quando o primeiro lugar foi anunciado para “Saveiros“, explodiu uma estrondosa vaia. Tão forte que, por muitos anos, ficou marcada como a primeira grande vaia da era dos festivais. Quarenta anos depois, Nelson Motta, letrista de “Saveiros”, analisa que “a vaia nem era muito pra Nana, nem pra nós especificamente. Era pro resultado. Eu vivi uma experiência muito interessante. Quando você tiver no palco de um ginásio com metade do público vaiando e metade aplaudindo, eu não sei por que, mas você só ouve as vaias. Então foi uma lição de vida. Aprendi que a vitória pode trazer um efeito colateral”.
Ouçam e relembrem “Saveiros”, na voz de Nana Caymmi:

Agora ouçam “O Cavaleiro”, na interpretação de Tuca:

Com a vitória na parte nacional, “Saveiros” representou o Brasil na fase internacional. A vencedora foi a alemã “Frag den Wind” (Helmut Zacharias/Carl J. Schauber), com Inge Bruek. A preferida do público era a francesa “L’Amour Toujours L’Amour” (Daniel Faure), com Guy Mardel, que ficou em terceiro. O segundo lugar ficou com “Saveiros“.
E então, qual a sua opinião ?

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Os Setentões deste ano (parte 3)

Milton NascimentoContinuando nossa série dos grandes nomes da MPB que completam setenta anos de idade em 2012 vamos postar hoje alguns momentos do genial Milton Nascimento.

Milton Nascimento, também conhecido pelo apelido de Bituca, (Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1942) é um cantor e compositor brasileiro, reconhecido mundialmente como um dos mais influentes e talentosos cantores e compositores da MPB.

Tornou-se conhecido nacionalmente, quando a canção “Travessia“, composta por ele e Fernando Brant, ocupou a segunda posição no II Festival Internacional da Canção (FIC), de 1967.

Segundo o trecho da contracapa do disco Milton e Tamba Trio:

Milton Nascimento entrou no estúdio acompanhado pelo ‘Tamba Trio’, no Rio de Janeiro, em 1967, para gravar seu primeiro disco. O encontro de ‘Milton & Tamba’ com os arranjos de Luizinho Eça fazem de ‘Travessia’ um álbum definitivo e eternamente moderno.

Até agora, Milton Nascimento já gravou trinta e quatro álbuns. Cantou com dúzias de outros artistas, incluindo Angra, Maria Bethânia, Elis Regina, Gal Costa, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Simone, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gilberto Gil, Beto Guedes, Paul Simon, Peter Gabriel (com quem co-escreveu a música Breath after Breath do Duran Duran), Herbie Hancock, Quincy Jones e Jon Anderson.

Entre diversos sucessos, destacam-se Maria, Maria” (com Fernando Brant), e Coração de Estudante” (com Wagner Tiso), que se tornou o hino das Diretas Já (movimento sócio-político de reivindicação por eleições diretas, 1984) e dos funerais de Tancredo Neves (1985).

Posteriormente, a Canção da América” (também com Fernando Brant), que versa sobre a Amizade, foi o tema de fundo dos funerais de Ayrton Senna (1994).

Poderíamos ficar dias e  dias postando sucessos de Milton Nascimento. Todos de altíssima qualidade. Mas, por hoje, vamos ficando por aqui.

O genial Milton Nascimento enriquece nossa MPB.

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Nossa série dos Setentões continua… Aguardem.

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O Corcovado na Sérvia.

NjufoldersiEntre as nossas diversas pesquisas sobre o interesse de outros países pela Bossa-Nova, encontramos essa bela interpretação de “Corcovado”, de Antônio Carlos Jobim.
Trata-se do conjunto Njufoldersi, da Sérvia, interpretando a música numa versão em sérvio.
O vídeo apresenta alguns problemas na parte do som, mas, mesmo assim, dá para ter uma ideia da excelente qualidade da banda.

Não encontramos outras informações sobre a banda na internet, muito menos a letra no idioma em que foi interpretada.
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A Bola da Copa 2014 : “A Brazuca”

Pode parecer um nome novo para os jovens brasileiros, mas, para quem não sabe, “A Brazuca” já foi sucesso na MPB e deixou saudades.

Antonio Adolfo e A BrazucaA Brazuca foi um grupo musical brasileiro do final da década de 1960 que participou no ano de 1969 do IV Festival Internacional da Canção (FIC), quando classificou a canção “Juliana” em 2º lugar no evento.

Conjunto formado originalmente por Antônio Adolfo (piano), Luiz Claudio Ramos (guitarra), Luizão Maia (baixo), Victor Manga (bateria), Julie (voz) e Bimba (voz). Em uma segunda formação, Julie foi substituída pelo cantor Luís Keller.

Atuou no cenário artístico de 1969 a 1971, gravando 2 álbuns: “Antônio Adolfo e A Brazuca” (1969); e “Antônio Adolfo e A Brazuca 2” (1970).

Ouça e relembre “Juliana”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar:

Agora ouça “Quebra Cabeça”, de Paulinho Soares e Marcello Silva, que participou do V Festival Internacional da Canção (FIC), em 1970:

Como disse Tibério Gaspar em uma entrevista, no ano de 2002 :

“… eu tenho também um carinho muito grande pelos festivais. Eu gosto de participar até hoje. Eu acho que eles são os verdadeiros celeiros da MPB, que é muito diferente do que é imposto pela mídia, que é totalmente comprada e vendida às gravadoras. O jabá foi institucionalizado. A gravadora tem um produto de baixa qualidade que ela pega e coloca numa rádio, compra o horário e impõe isso ao povo. “

A gente espera que “A BRAZUCA”, como “Bola da Copa 2014”, tenha o mesmo sucesso que teve esse excelente conjunto da nossa MPB.

Bem que os Festivais poderiam voltar a acontecer.

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E, já que falamos em BR-3…

Tiberio GasparTibério Gaspar Rodrigues Pereira, conhecido como Tibério Gaspar (11/9/1943 – Rio de Janeiro, RJ),  compositor, produtor musical e violonista autodidata. Ingressou na Faculdade de Engenharia, mas abandonou o curso para dedicar-se à música.

Iniciou sua carreira profissional em 1967.

Trabalhou em parceria com Antônio Adolfo, com quem compôs “Sá Marina” (inspirado em uma professora da cidade de Anta), no ano de 1968. Foi o seu maior sucesso. Gravada em original por Simonal, com grande repercussão, e em 2002, por Ivete Sangalo. No exterior, ela recebeu o nome “Pretty World“, em versão de Marylin e Allan Bergman, gravada por Sérgio Mendes, Stevie Wonder e, depois, por Earl Klug, que foi prêmio de melhor disco de jazz, além de outros.

Em 1970 venceu o V Festival Internacional da Canção (FIC) com “BR-3” (c/ Antônio Adolfo), defendida por Tony Tornado e Trio Ternura.

Vejam o vídeo do momento da premiação de BR-3 no V FIC:

Como toda música de sucesso, BR-3 teve sua história contada de maneiras diferentes da verdadeira.

Para esclarecer, pesquisamos na internet e encontramos a resposta dada pelo compositor.

Leiam parte da matéria publicada no site Velhos Amigos, em 23/12/2002, de Maria de Lourdes Micaldas (LOU), entrevistando Tibério Gaspar :

LOU – Existe um triste episódio sobre a BR3 e o tempo da ditatura?
TIBÉRIO – Foi uma música polêmica que causou muito problema pra mim. Fui chamado no SNI porque houve um boato que a música “BR3” era a veia do braço, era o hino do toxicômano. Isso foi uma notícia forjada pelo Ibrahim Sued, em complacência com a parceria de um General, já falecido, e eu tive que enfrentar um pouco essa situação estranha e esse estigma me acompanhou um pouco. Fui chamado no SNI pra esclarecer não só esse fato, mas como também o medo que eles tinham na época que o Tony Tornado fosse um líder negro que pudesse causar uma turbulência social. E daí, desfeitos os mal-entendidos, a gente continuou, mas eu fiquei um pouco guardado na geladeira. Na Revolução, essa Pseudo-Revolução, as gravadoras temerosas me congelaram.

LOU – Você chegou a ser preso?
TIBÉRIO – Não, eu cheguei a ser chamado no Ministério da Guerra e entraram numa conversa pra via dos fatos comigo.

LOU – Chegou a ser torturado?
TIBÉRIO – Não, torturado não, nem preso. Fui ameaçado.

LOU – Teve que sair do País?
TIBÉRIO – Não tive que sair do País, porque eu calei a minha boca. Mas tive que enfrentar um certo ostracismo imposto pelas gravadoras que não queriam deixar que gravasse minhas músicas e aí tive um hiato na minha carreira. Então, nesse disco, escrevi um rap que se chama “A História da BR3”.

BR-3
(Tibério Gaspar)

A BR-3 era somente uma estrada
Que ligava o Rio de Janeiro a Belô
Mas alguém falou que era a melô da picada
E um cara mau-caráter publicou o caô.
Dizendo que essa estrada era uma veia do braço
E que era o papo que rolava entre drogado e vapor,
Numa tentativa de tirar do fracasso
Um livro sobre drogas de um falso escritor.

A gente corre na BR-3.
A gente morre na BR-3. (BIS)

A BR-3 era o que a gente vivia,
Em cada um crime em cada reta o terror.
Um dia virou noite e toda noite era fria,
E a gente ficou surdo, mudo e cego de dor.
Havia dedo duro pau-de-arara e censura
E muita gente boa se mandou do Brasil.
A lei da ditadura era porrada e tortura.
Pra quem não concordasse: baioneta e fuzil.

A gente corre na BR-3.
A gente morre na BR-3. (BIS)

Agora que vocês estão por dentro dos fatos
É chegada a hora de dar nomes aos bois.
Enquanto a nossa imprensa como Pôncio Pilatos
Lavava suas mãos e se calava depois,
O tal do colunista e o mafioso comparsa,
Um burro que deu certo e um gorila escritor,
Uniram seus talentos e montaram essa farsa
Pra tomar carona no sucesso do autor.

A gente corre na BR-3.
A gente morre na BR-3. (BIS)

LOU – Quem era o presidente nessa época?
TIBÉRIO – Era o Emílio Garrastazul Médici, em 1970. Aí houve a divulgação dessa notícia do Ibrahim Sued e David Nasser, dizendo que a música era uma veia do braço e tudo mais. E isso me deu um prejuízo muito grande. Na íntegra, por trás disso, estava o lançamento de um livro chamado “Tóxico”, do General chamado Jaime Graça, que já faleceu também. E esse general colocava a “BR3” como sendo uma música de tóxico. No trecho que dizia “Há um foguete rasgando o céu, cruzando o espaço. E um Jesus Cristo feito em aço, crucificado outra vez…” Ele dizia que eu queria dizer que era uma seringa que vem do céu cruzando o braço, uma agulha feita em aço pra espetar outra vez. Ele transcreveu isso no livro dele. Eu não pude me defender porque todos os direitos civis nessa época estavam cerceados. Só através da Justiça Militar. E ficava complicado porque o cara era general do exército. Além disso, fui chamado no SNI, que era na época chefiado pelo João Figueiredo, já falecido, e fui interrogado por quatro coronéis. Um dos quatro virou general e era o Ronaldo Costa Couto, que foi o porta-voz do Figueiredo no governo e isso tudo já com a preocupação que o Tony Tornado fosse um líder negro, tipo Stokler Carmichael, versão tupiniquim do Black Panther americano. Tudo isso era uma coisa muito complexa. Então eu procurei trazer tudo isso pra dentro da música, em cada curva um crime, entendeu?

LOU – E você foi absolvido?
TIBÉRIO – Pela minha consciência e por Deus.

LOU – E você foi a julgamento?
TIBÉRIO – Não fui não. Fui chamado lá e expliquei.

LOU – Você estava no SNI com essa gente toda, com esses coronéis todos. Você explicou e eles aceitaram o argumento?
TIBÉRIO – Eu mostrei que não era nada disso. Que o Tony Tornado, na época, que se ele fosse um líder negro, ele continuaria o romance com a pretinha dele e não ia separar dela pra colar com a Arlete Salles. Aí a história dele virou café com leite. No meu caso foi uma invenção, uma coisa fabricada por esses caras. Eu levei isso ao conhecimento deles. Então eles arrefeceram.”

Agora, vejam o vídeo do “Show 40 anos de Estrada”, do cantor e compositor Tibério Gaspar com participação de Tony Tornado, no ano de 2006, interpretando BR-3 (original) e o Rap contando a História:

A MPB e suas histórias…

Saudades dos bons tempos de Festivais !

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Enquanto Belchior não vem, uma história de sua música.

Belchior (2004)Nosso ranking de acessos mostra que Belchior vem liderando e aumentando, dia após dia, sua diferença para o segundo colocado.

Ainda não temos outras notícias sobre “por onde anda Belchior”.

Mas, enquanto Belchior não vem, vamos curtindo o extenso rol de músicas que ele nos presenteou.

Ouçam “Tudo Outra Vez”:

Transcrevemos abaixo o conteúdo do Blog “Interpretação Pessoal”, de Thamirys Pereira, que descreve uma bela e inteligente interpretação  da história dessa música :

Belchior, lançou em 1979 o CD Era uma vez um homem e seu tempo. Neste álbum, Belchior consagrou músicas como Medo de Avião, Comentário a respeito de John e tantas outras que foram e continuam sendo sucesso em todo o Brasil. Mas uma, uma em especial, chamada Tudo Outra Vez, não desmerecendo as outras, tem a necessidade de ser interpretada por alguém.
Muita gente tem essa canção como o “Hino dos Universitários“, que estão longe de casa, cheios de saudades. Entretanto, a história por trás de Tudo Outra Vez é enorme, é linda e tem a ver com o ano em que foi lançada: 1979, o ano da famosa Lei da Anistia.

O Contexto Histórico
Apesar do país ainda estar sob domínio do Regime Militar, o ano de 1979 (no qual Tudo Outra Vez foi lançada) foi de grande liberdade política.
No ano anterior, mais exatamente em 13 de outubro de 1978, foram revogados todos os atos institucionais, inclusive o AI-5
, amenizando consideravelmente a censura que ocorrera desde os primeiros anos da instauração da ditadura.
Já em 1979, no dia 28 de agosto, foi promulgada por Figueiredo a Lei da Anistia. E é aí que entra o significado da música Tudo Outra Vez.

Tudo Outra Vez conta uma história: a história de um homem exilado durante a ditadura militar brasileira que, após a promulgação da Lei da Anistia, volta ao seu país.

Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa.
E, nessas ilhas cheias de distância,
o meu blusão de couro se estrago.

   Belchior, por meio do eu lírico já explicado acima, demonstra a saudade de casa, a saudade de seu país. Retrata a distância por meio das ilhas sempre tão longe do continente. Retrata o grande período de tempo por meio do blusão de couro que precisou de bastante tempo para se deteriorar.

Ouvi dizer num papo da rapaziada
que aquele amigo que embarcou comigo,
cheio de esperança e fé,
já se mandou.

    Na segunda estrofe, o eu lírico nos diz que seu amigo, aquele que embarcou com ele, já se mandou. No contexto da canção, podemos dizer que ele refere-se a um amigo que também lutou por ideais contrários à ditadura militar. Os dois, provavelmente, foram separados pelo exílio. E, após anos estando distantes um do outro, o eu lírico descobre que o seu amigo já é morto.

Sentado à beira do caminho pra pedir carona,
tenho falado à mulher companheira:
“Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil!”.
E um cara que transava a noite no Danúbio Azul
me disse que faz sol na América do Sul,
e nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil.

     O eu lírico nos remete, então, ao momento em que está prestes a voltar ao Brasil. Nos descreve a cena. Ele e sua atual companheira, ambos sentados à beira da estrada, enquanto esperam por uma oportunidade de carona. Ele refere-se ao Brasil como o país do trópico (de Capricórnio) e questiona-se sobre como estaria vida no país após tantas revoluções políticas, após tantas conquistas.

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro…
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro.
O fim do termo “saudade”,
como o charme brasileiro
de alguém sozinho a cismar.

     E ele, que mais adiante na música comprovaremos ser um nordestino, nos remete à objetos de sua cultura: a rede branca, o cachorro ligeiro. Neste momento, podemos dizer que a estrofe “coincide” com a chegada do eu lírico ao Brasil, já que nos apresenta neste instante o Concorde que vinha do estrangeiro, um avião supersônico de passageiros que completava três anos de uso àquela altura. Nos apresenta também o fim da saudade (um termo que só existe na língua portuguesa), fazendo-nos crer que ele já está em sua nação.

Gente de minha rua,
como eu andei distante.
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante.
Minha normalista linda,
ainda sou estudante da vida que eu quero dar.

     Mostra-nos elementos de sua vida anterior e posterior ao exílio. Acaba nos fazendo saber a respeito de seus relacionamentos anteriores e nos reforçando a ideia de que ele é realmente alguém que, após lutas intensas contra ditadura militar, foi exilado ao mostrar que era e ainda é um estudante. É importante salientar que os estudantes brasileiros foram os que mais lutaram contra o regime militar.

Até parece que foi ontem minha mocidade,
com diploma de sofrer de outra universidade.
Minha fala nordestina,
quero esquecer o francês.
E vou viver as coisas novas que também são boas:
o amor, humor das praças cheias de pessoas.
Agora eu quero tudo, tudo outra vez…

     Neste ponto final da canção, o eu lírico nos apresenta seus pensamentos: a visão de sua mocidade, onde o sofrimento imperava e um importante fato para a compreensão da música. O fato do eu lírico expressar a vontade de esquecer o francês nos faz pensar que ele esteve exilado na França. A França foi o principal destino dos exilados brasileiros, transformando Paris numa espécie de capital do exílio.

     E ele acaba concluindo a sequência de versos inéditos na música dizendo querer aproveitar todas as coisas boas que foram conquistadas também por ele, aproveitar o fruto do seu esforço. O eu lírio diz querer tudo outra vez, querer, de certa forma, recuperar todo o tempo perdido. Recuperar o tempo em que esteve fora e distante.”


  • Thamirys Pereira tem catorze anos, é aluna do curso integrado ao ensino médio de Controle Ambiental no IFPB e idealizadora do Blog Interpretação Pessoal.

Parabéns, Thamirys pela excelente interpretação.

Resta-nos esperar o retorno de Belchior para confirmar essa história.

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