Um desabafo ou um alerta ?

Sergio Ricardo O texto abaixo foi copiado da página de Sérgio Ricardo no Facebook.

Em tom de desabafo e/ou alerta, fala do triste momento que vive a nossa MPB.

ALERTA AOS CAROS AMIGOS DA MÚSICA

Nem saudosismo nem preconceito. Só uma pequena observação de quem é obrigado, mesmo distante dos meios de comunicação, a ter que ouvir o som que me vem pela janela, lembrando-me a todo o momento da destruição sonora emitida pela favela, ligada 24 horas por dia aos rádios e tvs, massificando o gosto popular, que lamentavelmente, emprenhado pelo costume, já canta e dança um falso Brasil. Mecânico, feio, sem ginga ou balanço, negando suas raízes, a cada acentuação rítmica elementar e hipnótica das ausências de mensagens que se ouve por aí, como a martelar um decreto do sistema, a essa altura, já absorvido, com a intenção de burrificar e alienar a capacidade criativa do povo. O bate-estacas de seu conteúdo, além de despersonalizar os sinais culturais atávicos de nossa cultura musical, outrora imitada e respeitada por todo o mundo, hoje é até recusada pelos animais. Dela, hoje, nem sinais. Cada fração dessa alienação são vinténs a se somarem na fortuna desse império que só visa o lucro, e mais do que isto, limpa o terreno para impor suas diretrizes sociais e políticas. Somos todos americanos e de tal forma já dominados, que quem não usa vocábulos do inglês, não consegue mais articular o português. Indução pura. Modéstia à parte, como compositor posso enumerar as perdas de nossas conquistas, de há muito, gradativamente perdidas, sob uma rígida análise teórica da estrutura da composição musical.

1- Melodia = pobre sem a construção das variantes de células melódicas a surpreender pela beleza de suas alternâncias como a contar uma história com princípio, meio e fim, que caracterizam a riqueza de um tema.
2- Harmonia – Preso a um, dois, ou no máximo três acordes, não embeleza a melodia com surpresas de encadeamento, dando estofo de beleza à ela, ajudando o desenvolvimento orquestral e dar forma particular à obra.
3 – Ritmo – Sempre o mesmo bate estacas limitando e escravizando a correspondência ou diversificação a colorir uma canção. Hipnótica. Primitiva. Repetitiva à exacerbação.
4 – Poema – Palavras ou frases repetitivas, sem conteúdo, muitas vezes de profundo mau gosto, ou pornográficos, como a comentar o obvio ululante, ou sem poesia alguma.

Chamar isto de música popular, no Brasil, é uma acinte à Africanidade e Lusitania rítmica e melódica herdadas de nossos ancestrais, sobre as quais inventamos os choros, os sambas, o frevo, a capoeira, etc. etc. com seus contratempos e riqueza rítmica movendo nosso corpo com nosso balanço próprio, imitado por outros povos, e dando nosso recado nobre e belo. Joguemos no lixo Caymmi, Cartola, J. Gilberto, Pixinguinha, Luis Gonzaga, Noel Rosa, Radamés Gnatalli, Tom Jobim, e tantos outros em detrimento de um bate estacas que nunca sai de moda e nada fala de nossos anseios, sentimentos, fincados na alma de nossa história?

Felizmente há uma juventude de estudiosos e cheia de talento nas periferias dessa imposição dos canalhas da comunicação que andam arriando as calças à determinação de retrocesso dos donos da grana. Mais uma vergonha nacional. Caro colega, não caia nessa esparrela. Vamos retomar nosso processo cultural que anda aos pedaços e enriquece-lo com sua contribuição e talento. Chega de frescura.

Sérgio Ricardo, nome artístico de João Lutfi, (Marília, 18 de junho de 1932) é um diretor de cinema, ator, cantor e compositor brasileiro.

Ao mudar para o Rio de Janeiro em 1952 conseguiu emprego como técnico de som e pianista, substituindo Tom Jobim. Familiarizado com a cidade, que foi o berço da bossa nova, passou a fazer parte do primeiro núcleo de compositores desse movimento musical. Lançou no começo dos anos 60 os LPs Não Gosto Mais de Mim e A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo.

Participou do III Festival de Música Popular Brasileira transmitido pela TV Record, quando, num momento antológico, foi vaiado pelo público ao cantar “Beto bom de bola“, e nervoso, quebrou o violão e atirou-o contra a platéia.

Relembrem essa música, injustamente vaiada no festival da Record, que fazia referência a história de Mané Garrincha e de muitos outros jogadores que deixaram se levar pela fama e acabaram na obscuridade.

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